3 de Dez 2014

Pe. Raniero Cantalamessa fala sobre os três últimos Papas

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O que o Papa Francisco quer dizer quando fala de “Igreja pobre para os pobres”? Qual pastoral é necessária para interpretar e testemunhar o Evangelho? Qual é a relação entre o Pobrezinho de Assis, o Papa argentino e a Eucaristia? Qual é a linha que liga os pontificados de João Paulo II, Bento XVI e Papa Francisco? E o que têm em comum com a leitura e interpretação do Concílio Vaticano II, os dois últimos papas? Estas importantes perguntas ZENIT fez ao Pe. Raniero Cantalamessa, da ordem dos Frades Menores Capuchinhos, desde 1980 Pregador da Casa Pontifícia.

ZENIT: Depois de sua eleição, o Papa Francisco revelou o seu sonho de “uma Igreja pobre para os pobres”. Alguns não compreenderam estas palavras do Santo Padre, outros a entenderam mal. Na sua opinião, no entanto, qual é o verdadeiro significado?

Pe. Cantalamessa: O único que o Papa Francisco fez foi relançar, com relação à pobreza, o “sonho” do Concílio Vaticano II. Na constituição sobre a Igreja está escrito: “Como Cristo realizou a redenção por meio da pobreza e as perseguições, assim também a Igreja está chamada a seguir o mesmo caminho… Cristo foi enviado pelo Pai «a evangelizar os pobres… a sarar os contritos de coração», «a procurar e salvar o que perecera». De igual modo, a Igreja abraça com amor todos os afligidos pela enfermidade humana; mais ainda, reconhece nos pobres e nos que sofrem a imagem do seu fundador pobre e sofredor, procura aliviar as suas necessidades, e intenta servir neles a Cristo. “(Lumen Gentium 8). Neste texto se esclarece os dois componentes essenciais do ideal da pobreza evangélica que são “ser para os pobres” e “ser pobres”. O Antigo Testamento nos mostra um Deus “para os pobres”, que está do lado deles e os defende; o Novo Testamento, um Deus que se faz, ele mesmo, “pobre” conosco e para nós (2 Cor 8,9). Em outras palavras, a opção preferencial pelos pobres deve ser acompanhada por uma opção igualmente preferencial pela pobreza! O Papa Francisco não se limita a repetir estas afirmações, mas as atua na sua pessoa sob os olhos de todos, e é isso que convence alguns e transtorna outros.

ZENIT: Também São Francisco de Assis indicou na pobreza evangélica uma revolução que teria libertado a Igreja e favorecido a difusão da fé. O que poderia dizer-nos sobre isso?

Pe. Cantalamessa: É verdade! É preciso, porém, ter em conta uma coisa que procurei explicar nas meditações do Advento Passado na Casa Pontificia e que foram publicadas pelo ZENIT no livro “Enamorado de Cristo. O segredo de Francisco de Assis”. Ele foi reformador pela via da santidade, não da crítica. Ou seja, não se propôs começar nenhuma revolução, mas só seguir ao pé da letra o Evangelho. A revolução aconteceu e marcou profundamente a história; mas esse é o modo de ser reformador pela via da santidade e não da crítica: sê-lo, sem sabe-lo, fazê-lo sem ostentá-lo. Não é o que está fazendo o Papa Francisco?

ZENIT: É pouco conhecido, mas a maior obra de São Francisco de Assis foi a de recuperar a fé na Eucaristia, no valor salvífico do Corpo e Sangue de Cristo. Tanto é assim que São Francisco ainda é considerado como um dos maiores santos eucarísticos. Mesmo nos tempos em que vivemos parece haver uma crise no reconhecimento do Corpo e Sangue de Cristo na hóstia. Como é que o Pobrezinho de Assis trouxe as pessoas para a Comunhão?

Pe. Cantalamessa: É verdade, Francisco, em seus escritos, fala da Eucaristia mais vezes do que da pobreza. Era coetâneo do IV Concílio de Latrão (1215), que tinha pedido uma renovação da piedade eucarística e ele se tornou um promotor. Nunca se cansou de recomendar a seus frades de rodear o altar e o tabernáculo de todo o cuidado e delicadeza. Tinha por Jesus presente na Eucaristia o mesmo sentimento que por Jesus em Greccio: sentia-o como uma pessoa viva e presente, não como uma doutrina ou um dogma de fé. Estava especialmente maravilhado pela humidade de Cristo que na Eucaristia se esconde “sob pouca aparência de pão” e em uma carta grita aos seus frades: “Olhem, frades, a humildade de Deus”. O amor pela Eucaristia explica também o seu grande respeito e amor pelos sacerdotes que a administram, a ponto de não querer pregar contra a vontade deles e de não querer olhar para os seus pecados.

ZENIT: Desde 1980 você trabalha como ‘Pregador da Casa Pontifícia’. Serviu três Papas, João Paulo II, Bento XVI e Francisco, em três períodos históricos. Que diferenças ou características espirituais identificou neles?

Pe. Cantalamessa: Você me faz uma pergunta difícil e delicada. Na exortação que me pediram para fazer aos cardeais no Conclave que seguiu a morte de João Paulo II, quando estávamos sob a impressão da sua personalidade que teria subjulgado qualquer possível sucessor, me lembro que disse que nenhum Papa é chamado para fazer exatamente o que fazia o anterior; que cada um é escolhido pela Providência para servir a Igreja com o próprio carisma e assim cada um leva adiante um aspecto do ministério petrino que ninguém pode cumprir, na mesma medida, em toda a sua vastidão. É evidente, por exemplo, que em Bento XVI predominava o aspecto do professor, portanto, do magistério, e no Papa Francisco o do pastor, apesar de cada um se esforçar por responder a ambas as tarefas. São João Paulo II encontrou-se guiando a Igreja no período em que aconteciam mudanças significativas no mundo (pensemos na queda dos regimes comunistas do Leste Europeu) e se revelou uma personalidade gigantestca à medida dos acontecimentos, capaz de ter um olhar aberto sobre um número impressionante de setores, desde os mais especificamente espirituais e pastorais aos sociais e de política mundial.

ZENIT: Alguns reclamaram de uma descontinuidade entre Bento e Francisco. Outros argumentam que, em vez disso, há uma grande ligação entre eles, principalmente pela leitura do Concílio Vaticano II. Qual é a sua perspectiva sobre isso?

Pe. Cantalamessa: Eu vejo uma total continuidade nas coisas essenciais: o mesmo amor a Cristo e à Igreja; o mesmo desejo de servi-la com toda a força, de acordo com a própria consciência; a mesma profunda humildade diante de Deus e dos homens. Eu vejo, como todos, uma diversidade de estilos e de caráter no modo de exercitar o próprio papel, tanto no que diz respeito à Cúria quando com relação ao resto da Igreja. Muitas das novidades que o Papa Francisco está atuando estavam, parece, já no coração e nas intenções de Bento. Só que vendo de fora do ambiente da cúria, “da periferia do mundo”, como ele diz, e favorecido pelo seu próprio temperamento, Francisco não hesitou em colocar a mão nas muitas mudanças desejadas por muitos, mas que pareciam impossíveis. Um ditado já usado por João XXIII dizia assim: “Nas coisas necessárias, unidade; nas duvidosas, liberdade; em todas, a caridade”. Parece-me que esta sábia regra encontra uma exemplar atuação nos nossos três últimos Sumos Pontífices.

 

Fonte: zenit.org

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