25 de mar 2018

Páscoa – Aspectos Teológicos e litúrgicos

Celebrar a Páscoa é contemplar e participar do mistério Pascal […]

Celebrar a Páscoa é contemplar e participar do mistério Pascal do Senhor – Paixão, Morte e Ressurreição. Este momento teologicamente forte e cheio de significados dá impulso para a vida litúrgica da Igreja. Os elementos bíblicos que nos permitem fundamentar a Teologia da Páscoa nos indicam a riqueza e profundidade dos acontecimentos constitutivos da fé judaica e cristã.

Etimologicamente, a palavra Páscoa vem do hebraico pesach que, traduzida para o grego será páscha e para o latim será pascha, e significa passagem. A Páscoa judaica tem o objetivo de celebrar a passagem, a saída, a fuga do Povo de Israel da escravidão do Egito rumo a Canaã, a Terra Prometida. Historicamente, a Páscoa dos hebreus é a festa que faz memória dessa passagem da escravidão para a liberdade. O povo de Deus viveu no Egito e passou por dura escravidão. Este mesmo povo sofrido clamou ao Senhor por libertação, e Ele enviou Moisés para tirá-lo da opressão e levá-lo rumo a uma Terra onde correria leite e mel e onde haveria de reinar a justiça e a paz (Ex 3, 1-22).

Com a resistência do Faraó em conceder a liberdade requerida por Moisés, Deus enviou dez pragas para forçá-lo a obedecer sua ordem de liberdade (Ex 7, 14 – 12, 20). A última praga foi a morte dos primogênitos egípcios, e exatamente neste momento em que essa praga estava por acontecer Deus instituiu a Páscoa entre os escravos hebreus com o propósito de livrá-los da morte e libertá-los do cativeiro egípcio. E assim o povo de Deus partiu com Moisés caminhando pelo deserto rumo à Terra Prometida.

Por ocasião da fuga do Egito, Deus mandou que Moisés orientasse o povo a tomar, cada família, um cordeiro sem mancha e sem defeito. No décimo-quarto dia, ao entardecer, todos deveriam sacrificar o cordeiro e passar seu sangue no batente das suas portas. A sua carne deveria ser comida com pães ázimos e ervas amargas, porque à meia-noite o anjo da morte desceria sobre o Egito e mataria os primogênitos. Entretanto, nas casas onde houvesse o sangue marcado na porta, ele não entraria (Ex 12, 21-51). Com esse ritual, naquela noite Deus libertaria todo o seu povo da escravidão.

Depois que o povo de Israel entrou em Canaã, celebrou-se a primeira Páscoa judaica (Js 5, 10-11), a fim de fazer memória daquele importante evento salvífico que Deus operou. O sábado era o dia dedicado pelos judeus para relembrar este feito divino: “Recorda que foste escravo na terra do Egito e que o Senhor, teu Deus, te fez sair de lá com a mão forte e o braço estendido. E por isso que o Senhor teu Deus te ordenou guardar o dia de sábado” (Dt 5, 15). Ainda hoje entre os judeus a Páscoa tem o sentido de fazer memória da libertação do Egito.

Em Cristo, a Páscoa judaica recebe uma nova compreensão teológica, torna-se o acontecimento salvífico por excelência. Com seu sangue derramado na cruz, Cristo operou a passagem da morte e da escravidão do pecado para a vida e a liberdade de filhos de Deus. Jesus é o novo Moisés que conduz o seu povo a caminho da reconciliação com o Pai, a fim de tirá-lo da condição de escravo sob o domínio do pecado para a vida plena na condição de justificados e salvos em Cristo.

Foi na Ceia Pascal judaica que o Senhor Jesus reuniu os discípulos e, depois de comerem o cordeiro imolado com pães ázimos e ervas amargas – como mandava a Lei –, tomou o Pão e repartiu com eles, dizendo: “Este é o meu corpo que é entregue por vós…”, depois tomou o cálice e deu-o a todos dizendo: “Este é o meu sangue que é derramado por vós, bebei dele todos” (1Cor 11, 23-25; Lc, 22-19-20;).

Jesus estabeleceu uma Nova Aliança, não mais um cordeiro sacrificado com o sangue marcado nos batentes das portas, mas ele próprio oferecendo-se na Cruz como vítima para a expiação dos nossos pecados. O sangue do cordeiro, no Antigo Testamento, era o sinal operado por Deus para a passagem da escravidão para a liberdade. Agora, no Novo Testamento esse Cordeiro sem manchas e defeitos é o próprio Cristo que se oferece no altar da Cruz, como oferenda viva para a libertação de todo pecado.

Na última ceia instituída como sacrifício de redenção e comunhão fraterna em seu Corpo e Sangue, o Senhor Jesus deu uma ordem aos apóstolos: “Façam isso em minha memória” (Lc 22,19), desejando que o grupo dos apóstolos perpetuasse na história humana essa Nova Aliança. Nascem com esse mandato de Jesus dois sacramentos: o sacramento da Eucaristia – presença real e atuante de Jesus nas espécies do Pão e do Vinho – e o sacramento da Ordem – ministro Ordenado que preside a Eucaristia in persona Christi. Portanto, ao celebrar o Sacrifício Eucarístico (Santa Missa), a Igreja faz memória daquele único e suficiente Banquete/Sacrifício,  Memorial da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Éramos escravos do pecado e Jesus nos libertou!

O Tríduo Pascal – Paixão, Morte e Ressurreição – é a liturgia que nos insere neste mistério, e o domingo ganha a precedência porque foi no primeiro dia da semana que o Senhor ressuscitou vencendo definitivamente todo o pecado no mundo (Mc 16, 9). Foi no primeiro dia da semana que reencontramos a alegria de sermos salvos no seu amor.

No coração do Tríduo Sacro, está a Vigília Pascal que sempre foi considerada a mãe de todas a vigílias e o coração do Ano litúrgico. A sensibilidade popular poderia pensar que a grande noite fosse a noite de Natal, mas a teologia e a liturgia da Igreja advertem que é a noite da Páscoa, na qual a Igreja espera em vigília a Ressurreição de Cristo e a celebra nos sacramentos.

A Vigília na noite santa se inicia com a liturgia da luz, evocando a ressurreição de Cristo e a peregrinação de Israel guiado pela coluna de fogo. A liturgia salienta a potência da luz, como o símbolo de Cristo Ressuscitado, no círio pascal e nas velas que se acendem do mesmo, na iluminação progressiva das luzes da igreja, ao acender as velas do altar, e com as velas acesas na mão para a renovação das promessas batismais. O símbolo mais iluminador é o círio, que deve ser novo cada ano e relativamente grande, para poder evocar que Cristo é a luz dos povos. Ao acender o círio pascal do fogo novo, o sacerdote diz:  “A luz de Cristo que ressuscita resplandecente dissipe as trevas de nosso coração e nossa mente” e depois apresenta o círio como Lumen Christi = a Luz de Cristo. Quando alguém nasce, costuma-se dizer que “veio à luz” ou que “a mãe deu à luz”. Podemos, por isso, dizer que a Igreja veio à luz na Páscoa de Cristo. De fato, toda a vida da Igreja encontra a sua fonte no mistério da Páscoa de Cristo.

A água na liturgia é igualmente um símbolo muito significativo. Ela é simples, pura, limpa e desinteressada. Símbolo perfeito da vida, que Deus preparou, ao longo dos tempos, para manifestar melhor o sentido do Batismo. A oração da bênção da água faz memória da ação salvífica de Deus na história através da água. Com efeito, a água é benzida para que o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, “no sacramento do Batismo seja purificado das velhas impurezas e ressuscite homem novo pela água e pelo Espírito Santo”. Na tradição eclesial, a fonte batismal é comparada ao seio materno e a Igreja à mãe que dá à luz.

O simbolismo fundamental da celebração litúrgica da Vigília é o de ser uma “noite clara”, ou melhor, “a noite que brilha como o dia e a escuridão é clara como a luz”. Essa noite inaugura o Hodie = Hoje da Liturgia, como se se tratasse de um único dia de festa sem ocaso (o dia da celebração festiva da Igreja que se prolonga pela oitava pascal e pelos cinquenta dias do tempo pascal), no qual se diz “eis o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos”! (Sl 118).

“Ó noite de alegria verdadeira, que une de novo o céu e a terra inteira”.

 Padre Ricardo Alexandre Fidelis

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